Para muitos, era a realização de um sonho de juventude. Para outros, era um curso para aprender algo novo enquanto uma nova oportunidade de trabalho não surgia. Para outros ainda, era a possibilidade de uma nova carreira. Ao fim do curso, no entanto, todos acabaram por descobrir uma veia de repórter. Esse foi um dos resultados mais palpáveis do projeto Profissão Repórter 60+, uma iniciativa da Dínamo Editora, que publica a revista Aptare, e da Associação Centros Etievan, organização não governamental dedicada à educação para vida. “O Profissão Repórter 60+ nasceu de uma ideia ambiciosa: dar ao público idoso o conhecimento técnico e as ferramentas adequadas para que ele pudesse criar conteúdos e canais que fossem de fato representativos de suas vozes, interesses e anseios”, explica Lilian Liang, editora da Dínamo Editora, idealizadora da iniciativa.

O projeto, possibilitado com recursos do Fundo Estadual do Idoso de São Paulo, foi concebido num formato que contemplava três turmas com duração de 12 semanas cada uma. Nesse período, os alunos tiveram aulas de jornalismo e tecnologia com profissionais atuantes no mercado. Em jornalismo, aprenderam termos como lead, fake news, entrevista, fonte, edição, off e outros conceitos importantes para a construção de uma reportagem. Nas aulas de tecnologia, os participantes tiveram a oportunidade de explorar aplicativos e outros recursos tecnológicos fundamentais no trabalho do repórter, como gravar áudios e vídeos, editar fotos e fazer entradas ao vivo no Facebook.

Além das aulas teóricas, o curso também trouxe um forte componente prático, para que os conceitos aprendidos fossem aplicados num ambiente semelhante ao de uma redação. Durante quatro aulas, os alunos assistiram a palestras com especialistas sobre temas relacionados à longevidade e, ao final, tinham que escrever uma matéria sobre o que ouviram. O material era editado e comentado na semana seguinte. Toda produção era então postada no site www.pr60.com.br.

Para marcar o fim do curso, os alunos fizeram uma saída a campo, para escrever um TCC a muitas mãos. A primeira turma visitou a Japan House, um centro de cultura japonesa, na Avenida Paulista, em São Paulo. A segunda turma desvendou os mistérios do Mercado Municipal, enquanto a terceira explorou a estação Sé do metrô. Os textos, escritos conjuntamente, trazem um panorama desses locais icônicos e cheios de histórias. “Esse curso foi uma oportunidade para trabalhar numa área de que eu sempre gostei. Fui produtor editorial e parei por um tempo. Agora, com os conhecimentos que me foram dados, me sinto mais à vontade para voltar ao mercado de trabalho com mais de 60”, diz Eliezer Azevedo, um dos alunos da terceira turma.

Experiência registrada em livro

A produção jornalística dos alunos foi publicada no livro Focas Experientes: Histórias de Vida e Jornalismo no Profissão Repórter 60+, juntamente com o perfil de alguns dos participantes, escritos pelos próprios colegas. O lançamento do livro marcou o encerramento do projeto, que extrapolou a meta de formar 90 repórteres 60+. No total, saíram do projeto 106 focas – jargão usado para o jornalista novato – com idade entre 60 e 86 anos. No entanto, segundo Lilian, as conquistas do projeto vão muito além do ensino de jornalismo e tecnologia. “Talvez o maior mérito do Profissão Repórter 60+ tenha sido possibilitar a essas pessoas um espaço para aprendizado, autoconhecimento e socialização. A descoberta de novos talentos, potencialidades e possibilidades ampliou muito, ainda que não intencionalmente, o impacto do Profissão Repórter 60+. Na sala de aula, vimos ideias desabrocharem, talentos serem descobertos e projetos serem colocados em prática”, conta. “Eu não gostava de escrever, achava que escrevia mal. Mas o curso me trouxe uma novidade incrível: descobri, através de vocês, que meus textos eram bons, e isso me incentivou a colocar no papel as minhas ideias e tudo o que eu achar válido. Foi um grande aprendizado e descoberta”, conta Matilde Vilar, aluna da segunda turma.

Mesmo com o final do projeto, muitos alunos continuam contribuindo com matérias para o site, com a cobertura de eventos, viagens e outros temas que consideram relevantes – uma forma de continuar praticando o que foi aprendido durante o curso. Alguns criaram blogs, outros estudam criar canais no YouTube. Um dos veículos resultantes do projeto e já em formato adiantado é o Jornal 60+, uma publicação online criada por um dos alunos e escrito coletivamente pela terceira turma, com colunas sobre temas como viagem, tecnologia, artesanato e trabalho.