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Mais de 6 mil pessoas representando 75 países se reuniram no verão de temperaturas amenas de São Francisco (Califórnia) entre os dias 23 e 27 de julho para o 21⁰ IAGG World Congress, o maior congresso mundial nas áreas de geriatria e gerontologia. No mês em que a cidade comemorava os 50 anos daquele que ficou conhecido como o verão Flower Power, movimento da cultura hippie norte-americana que pregava contra a violência, especialistas discutiram e apresentaram os estudos mais atuais em geriatria e gerontologia sob a organização da International Association of Gerontology and Geriatrics (IAGG).20245564_1562281480512589_9076977566756904687_n

ABERTURA

A cerimônia de abertura aconteceu no domingo 23 de julho, à noite, no centro de eventos Moscone Center, com a presença de dois importantes nomes da geriatria e gerontologia: Jo Ann Jenkins, presidente da American Association of Retired Persons (AARP) e autora do conceito de disrupt aging, e Linda Fried, diretora da Mailman School of Public Health da Columbia University, uma das principais pesquisadoras em fragilidade.

Ainda na cerimônia de abertura aconteceu a posse de John Rowe, da Mailman School of Public Health da Columbia University, como novo presidente da IAGG, com mandato de 2017 a 2021, ano em que acontecerá o próximo congresso da IAGG, em Buenos Aires, na Argentina. A noite terminou com uma apresentação cultural de tambores e leões chineses, mostrando um pouco sobre um dos povos de imigrantes que colonizaram São Francisco.

Disrupt aging

Joan Ann Jenkins abordou seu conceito de disrupt aging, que trata de como o envelhecimento pode ter um potencial disruptivo significativo e positivo, considerando as oportunidades que hoje as nações e os governos têm de pensar em políticas públicas para que as pessoas vivam mais e melhor.

Ela trouxe a público alguns dados globais sobre o envelhecimento. Citou que o Japão é o único país cuja população acima dos 60 anos já ultrapassa 30% do total. “Em 2050, 62 outros países alcançarão esse mesmo patamar”. Jenkins destacou que isso é possível graças às melhores condições de saúde hoje oferecidas às crianças e às pessoas com doenças crônicas, incluindo malária e aids, ao avanço da medicina e dos medicamentos.

“O modo como envelhecemos hoje é muito diferente da geração passada ou mesmo de como era há dez anos”, afirmou. “Ter 70 anos atualmente é diferente dos nossos pais na mesma idade, porque estamos vivendo mais e com saúde, o que nos dá novas possibilidades de viver essa fase da vida.”

Para ela, a visão não deve ser a do envelhecimento como um problema a ser resolvido, mas uma grande oportunidade, já que a expectativa de vida aumentou, na média global, cinco anos nas últimas duas décadas. Jenkins lembrou que já há pesquisas que mostram que as crianças que hoje têm menos de cinco anos passarão dos 100 anos; e até mesmo os indivíduos que chegarão a 150 anos no futuro já nasceram. “Agora temos que decidir o que fazer com nossas vidas mais longas”, disse.

Parafraseando o ex-secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU) Ban Ki-Moon, ela afirmou que o envelhecimento global não diz respeito apenas aos indivíduos mais longevos e suas famílias, mas a toda a comunidade e a sociedade em todas as suas instâncias. “Empreendedores e inovadores estão tentando entender essa mudança para oferecer produtos e serviços para as pessoas mais velhas. E isso é primordial, porque avanços na tecnologia e a inovação nos ajudarão a viver bem enquanto envelhecemos.”

Se médicos e cientistas conseguiram promover a longevidade  com mais saúde, por outro lado, infraestrutura, cultura e instituições não avançaram da mesma maneira para acompanhar essa mudança. “E é sobre isso que devemos nos debruçar. Precisamos avançar nesses pontos, não vendo o envelhecimento global como uma crise, mas como um desafio com oportunidades para a sociedade e para as nações”, disse. “É tempo de criar um movimento para um envelhecimento disruptivo, ou seja, mudar esse discurso sobre o que significa envelhecer.”

Para Jenkins, é preciso derrubar os estereótipos de idade e encontrar novas soluções para que as pessoas possam escolher como querem envelhecer. Isso passa por mudanças culturais, de comportamento, normas sociais e de políticas públicas. “Chegar aos 70 não é mais impossível. Por isso, precisamos ter novos sonhos e ser ativos na construção de uma nova sociedade”, disse. “O envelhecimento disruptivo não tem a ver com o envelhecer, mas com o viver, com a oportunidade de abraçar o envelhecimento. E isso não é algo a temer, pois é um período de crescimento, não necessariamente de declínio.”

Para que haja uma mudança social, Jenkins afirma que é necessário que o indivíduo que está envelhecendo se enxergue também de uma nova maneira – não como um peso para a sociedade, mas como alguém que contribui, que é produtivo e aceita seu próprio envelhecimento. “Precisamos não apenas aceitar a nossa idade, mas nos apropriarmos dela.”

O terceiro dividendo demográfico

Encerrando a cerimônia, Linda Fried abordou o envelhecimento populacional e o aumento da expectativa de vida como constituintes do “terceiro dividendo demográfico”. Um dividendo demográfico ocorre quando a proporção de pessoas em idade produtiva é alta na população, indicando que a maioria dela é produtiva e contribui economicamente para a sociedade.

O primeiro dividendo demográfico foi aquele constituído por sociedades predominantemente rurais, com altas taxas de mortalidade e fertilidade. O segundo é apontado por Fried como o estágio em que se encontra a maioria das sociedades e nações, com população majoritariamente urbana, baixas taxas de mortalidade, inclusive infantil, e de fertilidade, e com grande massa de trabalhadores. “Muitos países estão preocupados agora em perder a força de trabalho com o envelhecimento da população”, disse Fried. No entanto, ela vê no envelhecimento global o início de um possível terceiro dividendo demográfico.

“Em 2050, 2 bilhões de pessoas no mundo terão mais de 60 anos e não sabemos ainda o que oferecer a elas ou fazer diante disso”, afirmou. “Eu considero que temos a grande oportunidade de desenhar uma sociedade com vidas mais longas que seja um ganha-ganha para todas as idades. Para chegar lá, precisamos criar uma visão de futuro baseada em evidências e, com investimento adequado, podemos criar um terceiro dividendo demográfico.”

Se, por um lado, Fried diz que, sob a perspectiva econômica, a longevidade já é associada a um cenário otimista, ela reconhece que os níveis de dependência financeira por parte dos idosos mais velhos ainda são altos. Na visão dela, isso é possível de ser mudado se as sociedades também modificarem a maneira como enxergam o envelhecimento e reconhecerem oportunidades de geração de valor com o aumento da longevidade. Isso implica, por exemplo, na criação de novos produtos para esse grupo emergente de consumidores e na continuidade de profissionais acima dos 65 anos no mercado de trabalho, promovendo ambientes multigeracionais – que são, segundo ela, comprovadamente mais produtivos.

Além disso, Fried acredita que há muitas contribuições sociais dadas pelos idosos que, se mensuradas financeiramente, seriam muito superiores aos gastos com serviços de saúde com os quais, em geral, as sociedades arcam para os idosos. Ela cita diversos projetos sociais em que os idosos estão engajados, como aqueles em que eles são voluntários em escolas de educação fundamental e cujos resultados já apontam maior índice de sucesso na vida escolar das crianças, bem como melhoria no clima escolar e na eficiência dos próprios professores. “A ideia de que os idosos não contribuem para a sociedade é totalmente falsa. Eles têm um alto valor”, afirma. Para ela, é nisso que se constitui o terceiro dividendo demográfico – nos ativos não financeiros gerados pelos idosos. “Uma geração precisa da outra, e os idosos podem atender a muitas necessidades da sociedade”, afirmou.

Para que esse cenário seja possível – e positivo –, Fried diz que é preciso investir em educação durante toda a vida do indivíduo, em saúde desde a infância e em novas instituições sociais de alto impacto.

 

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