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No mês mundial do Alzheimer, um alerta: aliar os dois tipos de tratamento ajuda a melhorar a qualidade de vida da pessoa e ainda possibilita uma progressão mais lenta da doença

 Por Silvia Sousa

*Texto publicado na edição 25 da Revista Aptare

 Setembro é marcado como o mês mundial do Alzheimer. A data não existe apenas para lembrar que a doença é progressiva, mas sim para criar consciência sobre a necessidade de um diagnóstico precoce e sobre a importância de investir num estilo de vida que abra menos porta para o aparecimento do mal. Além disso, a ideia é combater estigmas sobre a doença e empoderar o paciente, lembrando que ele deve ter autonomia e voz ativa.

A doença de Alzheimer é descrita na medicina como uma demência degenerativa que acontece por causa do acúmulo anormal de uma proteína no cérebro. Isso provoca a formação de placas senis que prejudicam a atividade dos neurônios, as conhecidas sinapses, e consequentemente a morte dessas células. O principal sintoma é a perda progressiva das funções mentais. Mas esse tema ainda é alvo de muitas pesquisas, e cada vez surgem novidades. Um dos estudos mais recentes foi conduzido por cientistas italianos da Universidade Campus Bio-Médico de Roma e publicado no início do ano na revista Nature Communications. Foi constatado que a doença surge pela morte de neurônios na região onde é a fabricada a dopamina, neurotransmissor ligado às mudanças de humor.

Outras pesquisas também vêm sendo realizadas para encontrar a cura da doença – até uma vacina está sendo testada –, mas até agora sem o resultado esperado. Assim, o melhor ainda é iniciar o tratamento o quanto antes para retardar o aparecimento de sintomas que tirem a autonomia do paciente. Hoje há meios seguros para aumentar a vida lúcida do paciente, colaborando assim para manter a sua qualidade de vida por mais tempo.

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Crédito: Fotolia

 

Medicamentos + terapias = sucesso

O Ministério da Saúde (MS) classifica a doença de Alzheimer em quatro fases. Na etapa inicial, considerada leve, o paciente apresenta alterações na memória e mudanças no humor. Na fase seguinte, a moderada, há dificuldade para falar e realizar tarefas simples, como ir e voltar sozinho de alguns lugares ou preparar uma refeição. Agitação e insônia também marcam esse período. Na etapa 3, a doença já se encontra num estágio grave e o paciente apresenta incontinência urinária e fecal e dificuldade para comer e para se locomover. A última fase é a terminal, quando o paciente fica restrito ao leito, não se alimenta por via oral e tem infecções recorrentes.

Do diagnóstico até a fase final leva-se entre oito e dez anos, segundo o Ministério da Saúde. Mas a boa notícia é que é possível, sim, aumentar essa expectativa de vida. E mais: aumentar o tempo de autonomia do paciente.

Antigamente, a única maneira de tratar o paciente de Alzheimer era com o uso de medicamentos. Depois surgiram as terapias, conhecidas como tratamentos não farmacológicos, que têm como principal função preservar as ligações cerebrais. Para alguns médicos, só o uso de medicamentos era suficiente. Mas pesquisas recentes vêm mostrando que associar esses dois tipos de tratamento – o farmacológico e o não farmacológico – traz muitos benefícios aos pacientes. “Os dois são muitos importantes. Se você usa só o medicamento, é como se estivesse tratando só metade da doença. O não farmacológico potencializa o efeito do remédio e faz com que a doença desacelere por mais tempo. Ou seja, os sintomas vão aparecer, mas numa velocidade muito menor”, explica o geriatra Paulo Canineu, do Instituto Paulo Canineu – Memória e Envelhecimento, de Sorocaba (SP), e professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Essa associação chega a ser tão positiva que, em alguns pacientes, dobra-se a expectativa de vida após o diagnóstico. Outra vantagem em aliar os tratamentos está na ingesta menor de medicamentos para tratar os sintomas relacionados ao comportamento.

Para Douglas Benitez, diretor da clínica Senior Vita, de São Paulo, especializada em oferecer terapias para idosos, essa associação é uma nova possibilidade para os pacientes. “Aumenta o leque de opções, mas isso tem que acontecer em comum acordo entre o médico, o paciente e também a família envolvida”, explica. Ainda não dá para saber quantos idosos realizam esse tipo de procedimento no Brasil, mas sabe-se que nos Estados Unidos esse número vem crescendo. Atualmente, 53% dos acometidos pelo Alzheimer usam o tratamento não farmacológico como complemento ao que é indicado pelo médico no consultório.

 

Evolução mais lenta da doença

Existem duas classes de medicamentos usadas no tratamento dos pacientes com Alzheimer. “São drogas sintomáticas, ou seja, que tratam os sintomas, mas não a causa base da enfermidade. O uso da medicação pode diminuir o ritmo de evolução da doença, mas não frear ou curar o processo. O que observamos também é que há melhoras na cognição, nas atividades da vida diária e nos distúrbios de comportamento”, conta o geriatra João Senger, de Novo Hamburgo (RS), professor da pós-graduação na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) e vice-presidente da regional Rio Grande do Sul da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG). Segundo ele, o tratamento medicamentoso deve ser iniciado assim que feito o diagnóstico. “Dessa forma, aproveitamos melhor a capacidade de resposta que o paciente tem”, diz o médico.

Na fase inicial é mais comum o uso dos inibidores de acetilcolinesterase – donepezila, rivastigmina e galantamina. “A acetilcolinesterase degrada a acetilcolina, diminuindo as sinapses do cérebro e, com isso, há a perda de memória. O medicamento bloqueia essa produção e aumenta a oferta de acetilcolina, ajudando a retardar a evolução”, diz Senger.

Na fase moderada da doença, entra-se com a memantina, outro grupo de medicamento, que tem como principal função regular os receptores N-metil-D-aspartato, envolvidos na transmissão de sinais nervosos nas áreas do cérebro relacionadas com aprendizagem e memória. “Em alguns casos, usamos a associação dos dois grupos, pois os trabalhos científicos têm mostrado que ela apresenta melhores resultados do que quando as drogas são usadas individualmente”, conta João Senger.

 

Treinando as habilidades mentais

Tudo o que não envolve medicamento é considerado tratamento não farmacológico. O principal objetivo é atrasar a perda de habilidades mentais, ajudando a pessoa a permanecer mais tempo independente e aumentar a sua qualidade de vida.

O mais comum é a terapia ocupacional, que envolve uma série de procedimentos. Pode ser a realização de trabalhos manuais, leituras, pinturas, jogos de memória, quebra-cabeças, entre outros. Outro procedimento, também aplicado com a ajuda de um terapeuta ocupacional, são os exercícios de reabilitação cognitiva – envolvendo testes mentais –, que melhoram a cognição e mantêm as funções do cérebro. “O terapeuta ocupacional faz uma avaliação neuropsicológica do paciente e, a partir do resultado, consegue descobrir quais funções já foram afetadas. O tratamento vai tentar reabilitar o que já foi perdido”, explica Paulo Canineu.

A adesão a esses tratamentos, em alguns casos, antecede o uso de medicamentos. De acordo com Canineu, quando o comprometimento cognitivo é leve, as terapias tendem a funcionar bem, retardando o uso dos fármacos. A terapeuta ocupacional Tatiana Vieira do Couto, do Hospital do Servidor Público Estadual de São Paulo, cita outra vantagem do tratamento sem medicamentos. “Na faixa etária em que o Alzheimer acontece, geralmente a pessoa já tem outras doenças e faz uso de muitos medicamentos. Então, sempre que possível, pensamos em usar algo não farmacológico para evitar ter que administrar mais um medicamento e ainda lidar com os efeitos colaterais”, explica a terapeuta.

Há outras abordagens que são usadas com os pacientes, como pet terapia (convivência com animais domésticos) e musicoterapia. Elas podem tratar diretamente algum sintoma, como irritabilidade e confusão mental, ou apenas retardar o curso da doença e manter o idoso mais independente. O número de sessões, assim como a abordagem, vai depender de cada paciente – duas vezes por semana, com uma hora de duração, costumam apresentar resultados satisfatórios.

 

Dieta e exercício físico

Também no rol dos tratamentos não farmacológicos está a realização de atividades físicas. “Fazer um exercício aumenta alguns mediadores químicos que atuam em nível cerebral e agem como protetores dos neurônios”, explica Paulo Canineu. De acordo com o geriatra, é indicado que o idoso faça uma atividade aeróbica, como caminhar, nadar, andar de bicicleta, e também uma anaeróbica, como um alongamento e, em alguns casos, até musculação na academia, totalizando quatro dias de treino na semana, com duração que varia de 40 minutos a uma hora. Mas, lembre-se, sempre com a orientação de um profissional.

Outra abordagem é a nutricional. Hoje se sabe que uma dieta equilibrada, com alimentos ricos em vitaminas do complexo B, em vitaminas C e D, ômega 3 e 6, resveratrol e ácido fólico ajudam a proteger as sinapses cerebrais. Mais um ponto positivo para o doente de Alzheimer. Um exemplo de um bom cardápio vem da dieta do Mediterrâneo, caracterizada pelo consumo de frutas, vegetais, peixes, cereais, leguminosas (como grão-de-bico e lentilha), oleaginosas (amêndoas), vinho, azeite de oliva e iogurtes. Na mesma linha existe a dieta Mind (mente, em inglês), apontada como protetora do cérebro e do coração. Um estudo realizado pela Rush University, dos Estados Unidos, apontou que seguidores da dieta Mind tem 53% menos possibilidade de desenvolver Alzheimer do que aqueles que não adotam o programa. Até mesmo quem não leva à risca o cardápio leva vantagem, com 35% menos risco.

 

Agenda para um dia de voluntariado

Pertencer a um grupo de voluntários também traz benefícios para o doente de Alzheimer com comprometimento cognitivo leve. Pode ser ler para crianças num determinado dia da semana, ensinar bordado para gestantes, dar aulas de reforços para estudantes ou qualquer outra atividade que agrade ao paciente. Isso ajuda a manter o cérebro ativo e com desenvolvimento maior. Foi o que constataram os pesquisadores da Ghent University, na Bélgica. Segundo eles, ao praticar uma atividade voluntária, a pessoa melhora o acesso a recursos psicológicos e atividades cognitivas, protegendo o cérebro de algumas doenças, entre elas a demência. Além disso, esse tipo de atividade eleva a autoestima e ajuda na liberação de ocitocina, hormônio que controla o estresse.

 

Cuidado com os excessos

Como foi visto, existem muitas terapias que podem ser englobadas como tratamento não farmacológico. Qual delas escolher e com qual medicamento aliar vai depender da orientação do médico e do profissional terapeuta que acompanham o paciente. O que é preciso é respeitar o doente quanto à escolha da atividade e à frequência com que ela é realizada. “Ele tem que se sentir confortável com o que está fazendo. Se ele não quer, esse desejo precisa ser acatado”, alerta Benitez, da Senior Vita. Já para os pacientes incapazes, a melhor maneira de saber se o procedimento está adequado é observar seu comportamento. “Ele dá sinais. Pode ser que fique depressivo ou mais agressivo. Pode ser que fique muito cansado, passe a dormir mal. A família tem que ficar atenta e fazer os ajustes necessários”, explica.

Esses ajustes podem ser desde a escolha de outra terapia, a menor frequência (ou maior, se for o caso), a mudança do local (se é realizado em clínica, pode ir para a casa do paciente) ou até a troca do profissional que o atende. Tudo isso vai ajudar a minimizar o estresse e fazer com que o tratamento seja realmente eficaz. “Mas largar, de vez, a terapia, nunca!”, alerta a terapeuta ocupacional Tatiana. Daí a importância de o paciente sempre ser acompanhado por um profissional habilitado e, claro, ter a família por perto.

Aliás, a família ou o cuidador mais próximo também precisam ter seus momentos de relaxamento. “Um cuidador estressado leva a um paciente estressado e ao uso maior de medicação”, conclui o geriatra João Senger.

 

 

Casos de demência irão triplicar

A doença de Alzheimer é uma condição que atinge 45 milhões de pessoas no mundo. No Brasil, cerca de 1,5 milhão de idosos já foram diagnosticados, e a expectativa é que esse número cresça nos próximos anos. Segundo dados da Alzheimer’s Disease International, até 2050 o número de pessoas vivendo com demência no mundo deve triplicar, tornando-se um dos principais problemas de saúde pública do século 21. E a doença de Alzheimer é responsável por 50% a 75% dos casos de demência. Ou seja, os acometidos pelo mal devem dobrar nos próximos anos.

 

Estilo de vida saudável: menor risco

Mesmo sem saber exatamente as causas do Alzheimer, os médicos já investem em medidas preventivas para evitar que a doença apareça ou, pelo menos, que demore mais para aparecer. Isso porque existe uma linha de pesquisa que defende que fatores ambientais podem ajudar a desencadear a doença. Portanto, a adoção de um estilo de vida saudável beneficiaria todas as pessoas. O que se pode recomendar ao paciente? Veja:

– Saúde blindada: combater a hipertensão, o diabetes, a obesidade (e suas alterações metabólicas) e a deficiência da vitamina B12. Evitar cigarro e bebidas alcoólicas em excesso também entra nessa listinha.

– Pratique uma atividade física: uma hora de exercícios, três vezes por semana, melhora a sua saúde física e ainda beneficia suas sinapses cerebrais.

– Cardápio saudável: ponha no seu prato carnes brancas (peixes e frango), frutas (especialmente as vermelhas), folhas verde-escuras, azeite, leguminosas, oleaginosas e cereais. Deixe de lado frituras, carnes vermelhas, alimentos processados, doces e margarinas.

– Treine seu cérebro: mantenha o hábito da leitura, aprenda um novo idioma, brinque de jogo da memória ou quebra-cabeças: tudo isso ajuda a manter o cérebro ativo.

– Tenha uma vida social: encontre os amigos, participe de uma atividade em que você possa conviver com mais pessoas ou esteja rodeado da família. Evite o isolamento social.

 

10 sinais de alerta

Conheça os sinais mais comuns que podem denunciar o início da demência:

  • Perda de memória
  • Dificuldade de realizar tarefas comuns ao seu dia a dia
  • Dificuldade para ler ou entender o que acabou de ler
  • Diminuição do juízo mental
  • Desorientação em relação ao tempo e espaço
  • Problemas para manter uma sequência de tarefas
  • Guardar objetos fora de lugar
  • Mudança de humor
  • Perda da visão espacial
  • Isolamento das atividades sociais e do trabalho

 

Fonte: Alzheimer’s Disease International