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*Texto publicado na edição 25 da Revista Aptare

Confira os principais assuntos que estiveram em discussão durante a realização do IAGG 2017:

Viver em casa é mesmo a melhor solução

Nos Estados Unidos, ao menos 20% das pessoas acima dos 50 anos vivem sozinhas. A informação, apresentada por John Ramsey, vice-presidente de Saúde Global da Pfizer, serviu como indicador da importância do assunto moradia e cuidados em casa para idosos. Diversos trabalhos no Congresso apresentaram soluções tecnológicas para tornar inteligentes as casas, adaptações de moradia e mais alternativas, sempre com o objetivo de prolongar a vida independente dentro do próprio lar.

Uma das iniciativas nesse sentido, o conceito de village (do inglês, aldeia) foi o tema de um estudo da Universidade da Califórnia, Berkeley. O primeiro village foi criado em Boston, em 2002, por doze idosos que queriam encontrar uma maneira de envelhecer em casa. No modelo de village, idosos morando próximos uns dos outros criam uma rede de cuidado e apoio. Por meio de uma taxa de manutenção – que pode variar de acordo com a condição social do indivíduo ou da família (e vai de 10 a 900 dólares anuais) –, o morador pode acionar alguns serviços de funcionários contratados, e outros executados por uma rede de voluntários. Compras, consultas médicas e outras necessidades são sempre supridas localmente – há um perímetro máximo no qual voluntários atuam como motoristas desses idosos.

Atualmente, são 160 villages já em funcionamento. Um crescimento significativo, visto que, em 2010, eram apenas 35 em todo o país. Segundo a pesquisa, feita com quase 2 mil moradores de villages, 42% deles têm menos de 74 anos, 37% estão entre 75 e 84 anos e 22% acima dos 85 anos. Do total, 72% são mulheres, e quase a totalidade, 96%, é branca, sendo 58% deles com grau universitário. Vivem sozinhos 45% deles e 58% se declaram com ótima saúde.

Constatou-se ainda com a pesquisa que 56% deles reconhecem que aumentaram a conexão com outras pessoas depois que passaram a integrar o village, 55% começaram a confiar mais em outras pessoas, 30% passam mais tempo com amigos e vizinhos, e 29% vão mais a encontros e reuniões. Dentre eles, 27% fazem trabalho voluntário mais frequentemente, inclusive dentro do próprio village.

 Adaptações internas

Um painel sobre a comparação entre culturas a respeito das modificações e adaptações de casas para idosos mostrou a diferença entre países quanto à adoção de políticas públicas para que a população idosa permaneça em casa.

No Reino Unido, a pesquisadora Sheila Mackintosh, da University of the West of England, contou como tem acontecido o processo de adaptação das casas de idosos para que eles possam continuar vivendo nelas. Nesse país, há leis que permitem que as modificações sejam feitas e contem com financiamento público. Segundo o estudo de caso apresentado por ela, os projetos bem-sucedidos são aqueles feitos por arquitetos especializados que levam em conta os anseios do idoso, e não simplesmente o uso de soluções padronizadas, como colocação de barras de apoio em banheiros ou rampas de acesso onde antes havia escadas.

Já Fernando Alonso Lopez, diretor da Acceplan, empresa parceira da Universidade Autônoma de Barcelona e que atua na adaptação de moradias, contou como tem caminhado a questão na Espanha. Nesse país há políticas públicas implementadas a partir de 2006 para apoiar famílias com pessoas em situações de cuidado em longo prazo. No entanto, a questão de modificação de moradia não foi explicitamente incluída nas políticas – ainda que algumas pessoas consigam a verba para esse fim. Dessa forma, as famílias que têm algum membro com necessidades especiais têm de bancar por conta própria as modificações necessárias.

Segundo uma pesquisa citada por Alonso Lopez, 8,34% da população espanhola tem alguma necessidade especial. Desse total, 58% têm mais de 65 anos de idade. Pouco mais de 28% dessas famílias declaram ter gastos anuais por causa dessa necessidade especial, algo em torno de 2,7 mil euros, dos quais apenas 6,6% em modificações da moradia (a maioria em consultas médicas e terapias de reabilitação).

Já nos Estados Unidos, país que também não possui uma política para modificação de moradias de idosos, uma pesquisa da Washington University mostrou que as adaptações facilitam a realização de atividades da vida diária, bem como diminuem as quedas. No grupo que recebeu as intervenções, as casas tiveram barras de apoio colocadas nos banheiros, assentos de privada elevados e corrimões em escadas.

Ter um propósito de vida faz diferença para o idoso

Um mapeamento realizado pela Universidade de Stanford com 1.198 adultos entre 50 e 92 anos de idade teve como objetivo identificar quais são os propósitos de vida indicados por essas pessoas. Do total, foram feitas ainda 102 entrevistas aprofundadas.

Entre os entrevistados, 69% afirmaram ter um propósito de vida. Dos resultados, alguns destaques são de que estado de saúde e renda não têm relação com ter ou não um propósito; quanto mais anos de educação formal, um pouco maior a prevalência de propósito. Entre os grupos étnicos, 44% dos afro-americanos declararam ter propósito, assim como 47% dos latinos, 40% dos asiáticos e 43% de raças misturadas. Quanto ao gênero, mais mulheres do que homens disseram ter um propósito de vida.

Metade dos idosos com propósito citou um único e, a outra metade, vários. Normalmente, o propósito está ligado a uma experiência de vida e a interesses pessoais. Entre os mais citados estavam trabalhos ligados a causas, como pobreza, mentoria de jovens, direitos humanos, envelhecimento, cultura, religião, direito dos animais, desenvolvimento comunitário e saúde e bem-estar.

Outro achado que ganhou destaque no trabalho foi que aqueles idosos que têm um propósito de vida que promova o bem para outras pessoas também demonstram mais cuidados com a própria vida e com mais objetivos pessoais para os seus próximos anos de vida.

 

Cuidadores também precisam de cuidados

O preconceito etário (ageism) também foi tratado do ponto de vista do cuidador, seja ele um profissional ou um familiar. A pesquisadora Mary Wyman, da Universidade de Wisconsin, mostrou os resultados de sua pesquisa sobre as atitudes de cuidadores em relação ao envelhecimento. Nos Estados Unidos, 85% dos idosos que precisam de auxílio para atividades diárias têm a assistência de cuidadores informais, sejam eles cônjuges ou outros familiares.

A pesquisa entrevistou 116 mulheres cuidadoras acima dos 60 anos (até 90 anos) que cuidavam de idosas. Metade delas era da família e a outra metade era formada por vizinhas. Observou-se a importância de uma visão positiva em relação aos idosos cuidados, já que isso tem influência direta na maneira como as cuidadoras encaram o próprio envelhecimento. O componente cultural teve bastante impacto na visão positiva do envelhecimento. As cuidadoras afro-americanas apresentaram os maiores índices de visão positiva em relação às idosas de quem cuidam.

Pós-trabalho e aposentadoria são preocupação global

Pesquisadores e estudiosos de diversos países têm se debruçado sobre o tema do trabalho, pós-carreira e aposentadoria. O assunto ainda é bastante nov, e cada país tem tratado os idosos no mercado de trabalho de forma diferente e de acordo com os cenários locais.

Uma pesquisa do Netherlands Interdisciplinary Demographic Institute, apresentada pela socióloga Ellen Dingemans, teve como amostra 53.242 trabalhadores com idade entre 60 e 75 anos em 16 países. Estônia, Suécia e Suíça são os países com mais aposentados trabalhando e, nos índices de satisfação de vida, esses dois últimos países são os mais bem posicionados. No entanto, a relação trabalho após aposentadoria não tem uma relação direta com satisfação de vida em todos os países. “A satisfação com a vida profissional depende diretamente do rendimento recebido, e isso, por sua vez, depende do contexto do lar e do país em que está o trabalhador aposentado”, afirmou a pesquisadora.

Já Ignacio Madero-Cabib, pesquisador do Departamento de Sociologia da Universidade do Chile, apresentou sua pesquisa realizada na Suíça. Os resultados, embora reflitam a sociedade suíça, podem indicar muito a respeito de outros países, inclusive o Brasil, pois apontam que a maior vulnerabilidade entre as pessoas acima dos 54 anos que continuam no mercado de trabalho está entre mulheres viúvas e homens com entrada tardia no sistema de pensão local. Esses se veem obrigados a trabalhar a fim de ter maior qualidade de vida.

Outra apresentação importante sobre o tema no IAGG foi feita pelo grupo internacional da ILC Global Alliance, que trouxe um panorama sobre aposentadoria, saúde e envelhecimento. “O objetivo dessa pesquisa é entender melhor as variações internacionais entre saúde e mercado de trabalho e, a partir disso, compreender melhor o elo entre vida ativa e saúde”, explicou o economista Axel Börsch-Supan, do Instituto Max-Planck, de Munique, e membro da ILC.

A pesquisa partiu de três perguntas: 1) Como os idosos estão integrados no mercado de trabalho nos países?, 2) O que faz com que a aposentadoria precoce seja mais atraente?, e 3) O que faz com que o trabalho depois da aposentadoria estatutária seja atraente?

Para a primeira questão, obteve-se um panorama bastante diverso. Cerca de 50% dos idosos entre 60 e 64 anos continuam trabalhando na Europa. Na França, apenas 6,1% dos idosos entre 65 e 69 anos trabalham, enquanto no Japão a porcentagem é de 42,7%. Entre 70 e 74 anos, o índice no Japão é de 25,4%, enquanto nos Estados Unidos é de 18,6%, na França é 2,4% e, na Alemanha, 6,2%.

Quanto ao que torna a aposentadoria precoce atraente foram analisados os incentivos financeiros de cada país, bem como suas restrições legais em relação à idade. Dessa forma, entre França, Alemanha, Reino Unido, Holanda, Estados Unidos, Japão e Israel, o primeiro é o país com maior atratividade para a aposentadoria precoce, enquanto Japão e Estados Unidos são os países com menor atratividade. Isso acontece porque na França a aposentadoria precoce está instituída para algumas carreiras da área de saúde, policiais, militares, entre outros. Além disso, há a possibilidade de receber aposentadoria parcial e realizar também trabalhos de meio período. Já os países com menores incentivos são o Japão, que não possui uma política para aposentadoria aos 60 ou 65 anos, e os Estados Unidos, cuja idade mandatória está entre 66 e 67 anos.

Já para a questão sobre o que torna o trabalho atrativo após a idade de aposentadoria, foram analisados diversos aspectos, inclusive o de proibição por lei, subsídios ou custos para empregadores, limites de renda, entre outros. Os Estados Unidos são o país mais atrativo, já que são acrescentados 8% de bônus nos rendimentos a cada ano trabalhado até os 70 anos de idade. O Japão fica logo abaixo dos Estados Unidos na classificação de atratividade, com uma política parecida de bônus e ainda subsídios para empresários que mantêm em seus quadros profissionais idosos. A França é o país com menor atratividade para o trabalho após a idade de aposentadoria, pois o empregador pode impor a saída compulsória do trabalhador aos 70 anos, além de as contribuições após a aposentadoria serem obrigatórias e não acrescentarem vantagens nos rendimentos futuros.

Sobre a relação entre trabalho e saúde, Börsch-Supan explicou que a pesquisa comprovou que o trabalho é um prolongador da saúde mental, mas não necessariamente da física. “Isso torna essa relação um tanto complicada”, afirmou.

Demência – um panorama

Uma das sessões do IAGG discutiu cuidados paliativos em pacientes com demência, apresentando diferentes realidades entre as modalidades de cuidado em diversos países, como Estados Unidos, Reino Unido e Holanda. Os estudos trouxeram, em comum, a necessidade que as famílias sentem de receber maior feedback por parte das instituições onde seus familiares vivem e recebem tratamento. Intervenções pensadas para a realidade de cada instituição e para cada paciente são mais bem-sucedidas em promover maior satisfação entre os familiares.

A discussão ressaltou a dificuldade de comparabilidade entre os estudos dos diferentes países devido às distintas estruturas de acolhimento, moradia e cuidados para idosos. No entanto, ressaltou-se a importância de haver um médico dedicado ao serviço (o que não é realidade nas nursing homes do Reino Unido) e da atuação de uma equipe multidisciplinar especializada em cuidados de gerontologia e cuidados paliativos.

Outro estudo apresentado tratou da relação entre demência e delirium entre pacientes idosos hospitalizados. Segundo pesquisa do departamento de enfermagem da The Pennsylvania State University, metade dos adultos hospitalizados com demência desenvolve delírio, e muitos especialistas não se sentem à vontade ainda em fechar o diagnóstico. “Os profissionais de enfermagem são essenciais no auxílio ao médico, pois estão aptos a diagnosticar o delirium e a ajudar a diminuir os medicamentos prescritos”, afirmou Donna Fick, responsável pelo trabalho. Para ela, o enfermeiro tem papel fundamental para evitar a polimedicação, sempre que possível. “O que sabemos é que não são indicados medicamentos para os sintomas de delirium”, observou. “Mesmo medicamentos de balcão têm efeitos cognitivos, por isso devem ser usados muito cuidadosamente.”

Já Nicole Brandt, do Departamento de Farmácia da Universidade de Maryland, apresentou um trabalho sobre os custos das doenças crônicas não tratadas. Segundo a pesquisadora, metade delas, incluindo a demência, não é tratada da maneira correta por falta de aderência ao tratamento. Especificamente em relação à demência, os erros na prescrição e na administração de medicamentos comprometem a segurança dos idosos. Comunicação e informação são, segundo a pesquisadora, essenciais para melhorar a aderência. Dentro de sua pesquisa, Brandt criou um formulário – o MEDmaIDE – a ser utilizado por profissionais da saúde para detectar o que pacientes e cuidadores realmente sabem a respeito da medicação, por meio de questões em três áreas: se a pessoa sabe qual medicamento está tomando, se sabe como tomá-lo e como conseguir a medicação (em especial para pacientes fora dos grandes centros).

O cuidado com a administração de medicamentos é especialmente importante também considerando que a interação medicamentosa pode ser um grande risco em se tratando da população idosa. O geriatra Graziano Onder, da Università Cattolica del Sacro Cuore, na Itália, apresentou dados de que, nesse país, 11% dos idosos tomam mais de dez medicamentos. Nos Estados Unidos, essa porcentagem é de 12%. O geriatra apelou para que os médicos, antes de prescreverem um medicamento, levem em consideração o paciente, e não apenas a doença. “Isso significa considerar se o paciente tem ou não demência, os problemas de cognição e linguagem que a interação medicamentosa pode causar e os fatores sociais – se o idoso vive sozinho ou alguém o ajuda a tomar a medicação”, afirmou.

Além disso, segundo ele, também devem ser levadas em conta a expectativa de vida para cada paciente – a fim de saber se haverá tempo para desfrutar do benefício de certas drogas – e as síndromes geriátricas, como fragilidade, delirium e incontinência urinária. “As pesquisas mostram que essas síndromes são mais presentes em idosos em instituições de longa permanência do que entre aqueles que se encontram em home care, por isso o fator social importa.”

O geriatra Joshua Chodosh, da NYU School of Medicine, apresentou um panorama bastante amplo das demências e desordens cognitivas e os desafios para o diagnóstico correto. “Em um estudo recente, quando pediram a médicos que detectassem problemas cognitivos a partir de relatos de casos, eles erraram em 20% deles dizendo que ali não havia um problema”, conta. Para detecção, Chodosh diz que é necessário perguntar aos pacientes sobre a memória e outras funções cognitivas da rotina diária e relacionar, junto com os pacientes, os problemas de saúde que podem estar relacionados a problemas cognitivos.

“Conversar com o paciente sobre memória ainda é um desafio, porque há muito preconceito. Mas isso deve ser algo natural como medir a pressão arterial”, afirmou. “É preciso explicar que, no futuro, qualquer pessoa pode ter um problema de memória e que essas perguntas hoje são para manter o cérebro dele saudável.”

Para ele, os geriatras precisam usar algumas estratégias para essa abordagem. Algumas citadas por ele foram:

– exercer inteligência emocional,

– explorar o que as pessoas não estão dizendo sobre a condição cognitiva,

– ser reflexivo e usar sempre o “nós”, e não “você”,

– estabelecer uma relação de verdade e senso de continuidade,

– encontrar sempre o copo meio cheio.